terça-feira, 15 de abril de 2014

A ressaca de Johnny

Acordo lá pelas 11:30 da manhã, desconfio pois está cedo demais. Olhos inchados, boca seca e parece que um rato me rói da cabeça ao estômago. Janelas fechadas é claro, por precaução. A luz do sol pode ser tão mortal para os vampiros quanto para os adeptos da ressaca matinal. No meu caso a ressaca é eterna, até nos meus sonhos com Marilyn Monroe onde vejo o que tem por baixo daquele vestido voador apareço “ressaqueado”, afinal esse é o único estado que tenho desde que pude roubar, digo comprar minha bebida por conta própria.

Ponho a água do café na chaleira e um disco do Neil Young na vitrola. Reparo que estou nu, não me dou ao luxo de colocar uma roupa, afinal eu nunca ponho quando estou em minha própria casa. Nada é mais libertador do que andar pelado, eu andaria pelas ruas assim mas temo que as mulheres da vizinhança se apaixonariam por mim ou que a polícia me prenda e então quem se apaixonaria seriam os detentos daquela jaula de punheteiros e eu viraria uma boneca inflável de barba ambulante.

Vou para o banheiro ainda cambaleando e mijo como se tivesse tido uma orgia com animais noite passada.

—Porra! O que aconteceu noite passada?  Às vezes é melhor nem lembrar...

Fiquei sabendo de um cara que transou com uns travecos numa dessas noites de bebedeiras e no outro dia ele se suicidou. O coitado deve ter se lembrado.

A chaleira apita e minha cabeça palpita, ponho um cigarro na boca e procuro meu isqueiro no colchão. Reparo que tem um par de pernas entre as cobertas. "Mas que mer...", penso eu. E a maldita chaleira apita mais uma vez e a dona daquelas pernas grita com uma voz rouca:
— Menos barulho seu puto!

Acho o isqueiro e acendo o cigarro com um sorriso desconcertante no canto da boca, pensando: “Espero que não seja um traveco”.

— O café da manhã está servido!