Acordo lá pelas 11:30 da manhã, desconfio pois
está cedo demais. Olhos inchados, boca seca e parece que um rato me rói da
cabeça ao estômago. Janelas fechadas é claro, por precaução. A luz do sol pode
ser tão mortal para os vampiros quanto para os adeptos da ressaca matinal. No
meu caso a ressaca é eterna, até nos meus sonhos com Marilyn Monroe onde vejo o que tem por baixo daquele vestido voador
apareço “ressaqueado”, afinal esse é o único estado que tenho desde que pude roubar,
digo comprar minha bebida por conta própria.
Ponho a água do café na chaleira e um disco
do Neil Young na vitrola. Reparo que estou nu, não me dou ao luxo de colocar
uma roupa, afinal eu nunca ponho quando estou em minha própria casa. Nada é
mais libertador do que andar pelado, eu andaria pelas ruas assim mas temo que
as mulheres da vizinhança se apaixonariam por mim ou que a polícia me prenda e
então quem se apaixonaria seriam os detentos daquela jaula de punheteiros e eu
viraria uma boneca inflável de barba ambulante.
Vou para o banheiro ainda cambaleando e mijo
como se tivesse tido uma orgia com animais noite passada.
—Porra! O que aconteceu noite passada? Às vezes é melhor nem lembrar...
Fiquei sabendo de um cara que transou com uns
travecos numa dessas noites de bebedeiras e no outro dia ele se suicidou. O
coitado deve ter se lembrado.
A chaleira apita e minha cabeça palpita,
ponho um cigarro na boca e procuro meu isqueiro no colchão. Reparo que tem um
par de pernas entre as cobertas. "Mas que mer...", penso eu. E a maldita
chaleira apita mais uma vez e a dona daquelas pernas grita com uma voz rouca:
— Menos barulho seu puto!
Acho o isqueiro e acendo o cigarro com um
sorriso desconcertante no canto da boca, pensando: “Espero que não seja um traveco”.
— O café da manhã está servido!