quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Amélie

Biblioteca de alças 
tira o all star de cano alto
segue descalça
dança tua valsa no asfalto
quente,
cheiro de sexo e jasmim
aguardente,
sempre boemia
em varandas
ou em botequins,
discos e discografias
vícios e ideologias
vestidos de cetim,
Radiohead em fones de ouvido
sempre o de sempre 
na padaria do Seu Zé  
um maço de cigarros
um copo de café,
lábios,
vermelho cor diabo
amante
de homens e mulheres,
do acaso.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Inferno & Carnaval

Lá se vai
o meu amor
entre as folhas
com o vento
na pipa azul
no céu,
no arrebento das ondas
na ponta seca do pincel
no tempo...
ah o tempo,
o tempo não para pra nós dois
pois o nosso tempo
é temporal
um desalento
ora inferno
ora carnaval.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

Para brisa

Nos corais mais belos
litorais
arquipélagos,
nos olhos verdes
cabelos
castanhos,
rostos postos
à mesa,
gostos estranhos
gostos postos
à mesa,
rostos estranhos.

Nos becos
e vinhetas
nas proezas
e poesias
violetas
e gira sois
nos dias,
em
nós.

Berro,
grito,
enterro
e ressuscito
o amor em mim.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Primeiro discurso de um velho ancião

Ah... eu vos digo meus amigos,
o maior perigo é a ignorância e a hipocrisia,
a discrepância das fantasias criadas por nós,
as mesmas que nos enganam dia após dia.


terça-feira, 15 de abril de 2014

A ressaca de Johnny

Acordo lá pelas 11:30 da manhã, desconfio pois está cedo demais. Olhos inchados, boca seca e parece que um rato me rói da cabeça ao estômago. Janelas fechadas é claro, por precaução. A luz do sol pode ser tão mortal para os vampiros quanto para os adeptos da ressaca matinal. No meu caso a ressaca é eterna, até nos meus sonhos com Marilyn Monroe onde vejo o que tem por baixo daquele vestido voador apareço “ressaqueado”, afinal esse é o único estado que tenho desde que pude roubar, digo comprar minha bebida por conta própria.

Ponho a água do café na chaleira e um disco do Neil Young na vitrola. Reparo que estou nu, não me dou ao luxo de colocar uma roupa, afinal eu nunca ponho quando estou em minha própria casa. Nada é mais libertador do que andar pelado, eu andaria pelas ruas assim mas temo que as mulheres da vizinhança se apaixonariam por mim ou que a polícia me prenda e então quem se apaixonaria seriam os detentos daquela jaula de punheteiros e eu viraria uma boneca inflável de barba ambulante.

Vou para o banheiro ainda cambaleando e mijo como se tivesse tido uma orgia com animais noite passada.

—Porra! O que aconteceu noite passada?  Às vezes é melhor nem lembrar...

Fiquei sabendo de um cara que transou com uns travecos numa dessas noites de bebedeiras e no outro dia ele se suicidou. O coitado deve ter se lembrado.

A chaleira apita e minha cabeça palpita, ponho um cigarro na boca e procuro meu isqueiro no colchão. Reparo que tem um par de pernas entre as cobertas. "Mas que mer...", penso eu. E a maldita chaleira apita mais uma vez e a dona daquelas pernas grita com uma voz rouca:
— Menos barulho seu puto!

Acho o isqueiro e acendo o cigarro com um sorriso desconcertante no canto da boca, pensando: “Espero que não seja um traveco”.

— O café da manhã está servido!


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sobre vivente decadente

Conforme os meses passam
o tédio e o sofá se abraçam.
Eu tiro a desgraça para uma dança
vem cá! me arranque essa mordaça, e corre, some!
que a minha vingança tem nome.

Eu rodo e me acomodo num moinho de fumaça.
Um homem de noitadas
vivendo dias de cão.
Mas eu sei que logo isso passa
se não com vinho então com cachaça.

Até que o moinho vire furacão.